Como Navegar no Mar Grande: 1 Lição Fácil


Alou Maruj@s!

Para quem está já se aventurando pelos mares desse mundão ou já está pensando nisso, segue um post um pouco mais técnico – mas simples, claro – para ajudar em alguns dos momentos mais tensos da navegação: Timonear no Mar Grande.

Seja um marujo de primeira viagem, ou um comandante experiente, navegar com ondas grandes não é nada fácil e tampouco agradável para os tripulantes. Tem gente que fala mar Grande, Mar Grosso, Mar Revolto, de Ressaca. Não importa o nome, o que importa é você saber as dicas para timonear nessas condições com segurança. Na verdade, não são Dicas, mas Dica. É 1 dica só, mas com detalhamento porque a gente gosta de explicar a coisa direitinho! 😉

Antes, observações importantes: não arrisque. Prefira ficar abrigado, mesmo em caso de dúvidas. Sair com mar grosso Nunca é uma Boa opção. A ideia aqui é que, caso ocorra enquanto você está no mar, você saiba se safar. O que leva a 2a. observação: esteja sempre preparado sabendo o que seu barco tem de equipamentos para encarar mares grossos e que tais equipamentos estejam todos em condições e prontos para uso. Lembre-se também que a Previsão de Clima, incluindo condições de mar, é parte Obrigatória da Boa Marinharia justamente para você não ser pego de surpresa e ter que encarar uma tormenta enquanto está no mar.

Então, sem mais enrolação, vamos ao que interessa!

Percebendo o Mar

Quando o mar começa a crescer e as ondas passam de 1 metro, é mais do que normal o barco começar a balançar de um lado para o outro ou batendo a proa. Isso depende do seu seu rumo, claro. Se você for de proa nas ondas, perpendicular, a sua proa vai subir as ondas e descer com força: “batendo”. Se seu rumo é paralelo às ondas, então atingem seu barco de lado, pelo costado, fazendo o barco balançar de um lado para o outro igual a um berço: “rolando”. Se seu rumo é de popa para as ondas, o barco vai ficar se atropelando, ou melhor, “atravessando”.

A primeira coisa é ficar tranquilo porque, de verdade, não tem jeito de impedir a batida ou rolagem, porém é ainda mais importante entender que esses dois movimentos podem ser perigosos e portanto, evitados, mesmo que para isso você tenha que mudar seu rumo completamente. Sério, não navegue batendo ou rolando.

Vale saber também que às vezes a onda pode nem ser tão grande, mas tem muita força e daí nasce um engano bem comum de achar que só ondas enormes têm força suficiente para adernar ou mergulhar a proa do seu barco (nose dive). Ondas que ultrapassam a altura do seu costado (altura lateral do seu barco da linha d’água até o deck) são bem tensas e se você ficar de lado para elas, é bem provável que você aderne completamente ou, na melhor das hipóteses, só perca o comando do leme temporariamente, mas daí a coisa vai só complicando.

Em relação ao Mar, não existe regra: ondas pequenas podem ser fortes, ondas grandes podem ser mais fortes ainda e além do tamanho, a frequência também é importante (tem gente que chama de “tempo das vagas”). Ondas pequenas em intervalos curtos podem causar dificuldades de navegação também, um mar picado é bem chato de navegar e cansa bastante.

A regra então é Prevenir e Observar: que tipo de mar você está encarando e como o seu barco se comporta.

Uma forma legal de entender o mar é saber a Tabela Beaufort que é uma graduação de severidade do mar e ela vai te dar indicações práticas de como identificar a força do vento e do mar, como por exemplo:

“Brisa Forte: ondulações de 2,5m com Cristas e Carneiros”.

Daí, sabendo disso, se você está na marina, atracado, preparando para velejar e olha de longe o mar – usando um binóculo – e vê que onde você velejará tem carneiros e cristas, cara, para e pensa: vale arriscar e fazer todo mundo ficar mareado? minha tripulação aguenta e sabe lidar com isso? meu barco está preparado?

Falando em barco…

Entenda o seu Barco

Informações Importantes: quando se compra um barco novo, normalmente no kit do proprietário, vem uma tabelinha chamada Righting Lever Table, GZ Curve ou Curve of Statical Stabilty. São todos o mesmo nome para Curva de Estabilidade. Se você não tem isso para o seu barco, é possível buscar pelo modelo do veleiro falando com o estaleiro ou projetista. É bastante legal você conhecer bem a tabela do seu barco.

Por quê? Porque é esse gráfico (curva) fácil de entender, que vai te dizer o ângulo de inclinação que seu veleiro aguenta adernar (inclinar para os lados) e qual ângulo ele deixa de voltar e vira de ponta-cabeça (capotar, mesmo).

A gente colocou abaixo um exemplo de Curva de Estabilidade de um Veleiro 32′, com quilha curta.

Para entender: o eixo horizontal mostra os ângulos, o eixo vertical, a altura do centro de gravidade. Relaxa! Para facilitar e dar a coisa mastigada, basta entender que o ponto máximo do gráfico, lá nos 30° é como se fosse o ponto de equilíbrio e a partir desse ângulo seu veleiro vai começar a ter problemas para voltar a posição de pé. Viu o 70°? Bem, é aí que a coisa deu ruim.

Mas se liga! Esse gráfico é hipotético. Tirando os veleiros de regata de ponta, como Volvo Ocean Race, Vendee Globe, MiniTransat etc, dificilmente os estaleiros fazem os testes e esses ângulos são calculados matematicamente. Não é que a gente não acredite na matemática, mas é que do projeto ao barco final, prontinho, que você leva para sua marina, existe Muiiiiita Diferença. São acessórios que a gente coloca, modificações de mastro, quilha, bote amarrado no convés, banco de baterias extras, mais um – ou menos um – tanque de água… Tudo isso altera o centro de gravidade e estes ângulos de inclinação. Em resumo: aquela matemática do projeto dá um resultado diferente da realidade.

Dito isso, além de conhecer a curva de estabilidade, veleje bastante e conheça bem o comportamento do seu veleiro. Veleje o máximo que puder! É na prática que se aprende a velejar e que se conhece o seu barco. 😛

Isso tudo aí sobre a Curva de Estabilidade é para ondas laterais. Mas lembre-se, as ondas podem estar vindo de proa e isso faz outro movimento no seu barco: subir a onda e cair lá de cima. Além de forçar a estrutura do barco, esse movimento é bem perigoso, especialmente para barcos menores porque fazem o Nose Dive, acho que a tradução mais adequada seria “Mergulho de Proa”.

Não sabe o que é Nose Dive? Então dá uma olhada no vídeo que você vai entender rapidinho.

Repare: é um Navio da Marinha. Repare de novo: é um mar crespo, com carneiros = um Grau 5 ou 6 na Escala Beaufort. E isso é um navio potente, preparadão para qualquer mar e situação. Viu como a coisa é sofrida? Então, vamos evitar, né… 😛

Aqui cabe um adendo: quando estiver enfrentando mares mais fortes, vale a pena ligar motor. Mesmo que não esteja engatado dando seguimento, você assim estará já preparado para uma necessidade de mais força para vencer uma onda maior. Se a coisa estiver realmente difícil e seu barco tiver um bom motor, baixe as velas e vá motorando. Mas novamente vale a dica: conheça seu barco. Às vezes, deixar um pouco de buja e grande pode ajudar na estabilidade do seu barco e dar um pouco mais de potência para navegar no mar grande.

Falando em motor, se o rumo da velejada não coincide com o melhor rumo para encarar as ondas, considere também deixar as velas de lado e ir só no motor. Meu amigo maruj@, fica ligado! O melhor é garantir SEMPRE a segurança da tripulação e do barco. 🙂

Nas embarcações menores, o nose dive é perigoso porque as vezes é tão forte que pode levantar a popa e retirar parte – ou todo – o leme da água e daí você perde o controle do barco e a coisa fica mais complicada. Portanto, como na Onda Lateral – de través -, o melhor mesmo é evitar.

“Tá, mas e aí? O que eu faço?”

A essa altura do post você deve estar pensando: “Não posso pegar a onda de frente, nem de lado. Mas você não falou nada sobre ondulação de popa. É melhor então pegar as ondas tipo jacaré e surfar?” Boa dedução, meu caro maruj@, mas também não é uma das melhores opções.

Você sobe a onda de proa e quando seu barco começar a descer essa onda grande, ela dará velocidade no barco, tipo um surfe mesmo, mas a altura é tão diferente entre a crista da onda e o vale, que sua proa pode mergulhar na onda da frente, ou pior, no vale da própria onda que sua popa subiu. Isso faz a velocidade da proa diminuir muito em relação à velocidade da popa e aí seu barco pode girar, o famoso “Broaching” que a gente já falou aqui nos posts da Academia Náutica:

Broach é quando o barco muda de direção repentinamente e atravessa (90 graus) em relação ao rumo que se seguia. Isso pode acontecer por conta do vento, do mar, ou de regulagem das velas, ou de tudo isso junto. rs! rs! rs! Normalmente, tudo junto. 😛 Se você ficou curioso, joga no google uma pesquisa de vídeos “broaching sailing” que vai aparecer um montão de situações, várias delas com ondas de popa como explicamos agora. A gente é assim: conta a história e mostra o vídeo!

“Pô, Daniel, então não dá para velejar as ondas de Proa, nem de Través, nem de Popa… Aí complica…” Calma maruj@. O melhor ficou pro final:

Escolha o Rumo Certo!

Bem, você já entendeu o mar e já sabe como as ondas afetam seu veleiro. Então, A Dica de Ouro é Como Escolher seu Rumo em relação as ondas. A gente podia escrever um post inteiro só sobre isso e completar com horas de palestras e até cobrar os olhos da cara por um curso de Como Navegar no Mar Grosso, mas a gente prefere, como sempre, democratizar esse conhecimento que já está por aí, espalhado em uma porção de livros, textos, reportagens, etc. O que a gente fez abaixo, então é, de forma simples, juntar tudo em duas figuras.

Pronto? Então, lá vai!

Páh!!!

Ondas e Vento de Proa:

Orçar para Subir, Arribar para Descer

(Não lembra o que é Orçar e Arribar? Relembre o Be-a-bá da Vela)

Navegação em Mar Grande - Rumo de Proa

 

 

Ondas e Vento de Popa:

Orçar para Descer, Arribar para Subir

ACA_PPT Rumos de Mar Grande_Popa

 

Ah-ha! É essa aí a dica: suba as ondas de proa, mas desça as ondas usando as alhetas (quinas ou bochechas). E nunca-nunca-nuca navegue as ondas fortes de través, mesmo que para isso você tenha que mudar o seu rumo. Convenhamos, um velejador raiz já está acostumado a ir zigue-zagueando até o destino! 😀

Agora que você está mais safo na teoria, só falta uma coisa: Praticar. Na prática, a coisa é um pouco diferente, por exemplo, normalmente as ondas são mais rápidas que seu veleiro e isso faz com que você tenha que ficar atento na formação das ondas, de onde elas vem e as sequencias porque não é seu barco que estará subindo a onda, será a onda que estará passando por baixo do seu barco, forçando o leme, mudando o rumo, diminuindo a pressão nas velas e aumentando também.

Por isso tudo, a verdade é que não se aprende a Navegar no Mar Grande, grosso, revolto, mexido sem ir lá e velejar cada um deles. Pratique e veleje o máximo que puder, vá aos poucos: saia para velejar em ventos e mares calmos. Depois de dominado e entendido o mar e o barco nessas condições, ouse um pouco mais e saia com vento um pouco mais forte e mar um pouco maior. Nunca esqueça de estar acompanhado e usar o equipamento de segurança: colete salva vidas homologado e harness (cinto de segurança e talabarte).

Entenda e use a escala Beaufort para escolher os dias e os níveis que você está já velejando confortavelmente e assim não arriscar demais além do que você esta acostumado e acabar passando sufoco. Lembre-se sempre de ter Cautela e na dúvida não arrisque, fique seguro.

Velejar é divertido, é uma aventura e uma das melhores atividades para o corpo e para a cabeça. Aproveite cada minuto no mar e…

Bons Ventos! 🙂

 

Opa! Faltaram algumas observações sobre o assunto: Ancora de Maré, Heave To e Tempestades Tropicais. Vamos falar disso, mas em outro post. Fica Ligado!!!

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