Descomplicando a Travessia – Parte 2, Plano de Viagem!


Alou Maruj@s!

O barco está pronto e você está com tudo preparado para içar velas e seguir a travessia, certo? Calma, calma, calma. Ainda não! Falta o planejamento da viagem. Assim como uma viagem de carro, no mar não é diferente, a gente precisa saber para onde vai, que estradas pegar, tempo de viagem e onde vamos parar. Imagina sair do Rio de Janeiro e ir até São Paulo de carro? É uma viagem bem comum, aliás, mas me diz aí, depois de umas 3 horas dirigindo você vai querer para para descansar, comer uma coisa, esticar as pernas.

Nas travessias oceânicas é mais ou menos a mesma coisa: Para onde Vai, é o Porto de Destino. Que estradas pegar, a gente pode dizer que é um conjunto entre o vento, as correntes e as marés. Tempo de viagem é o tempo mesmo, isso não muda 🙂 . E onde vamos parar para “esticar as pernas” são os portos de apoio no caminho porque lembre, mesmo que o barco seja muito mais autônomo do que um carro, conseguindo até mesmo ficar 10-20 dias sem abastecer de combustível, água ou comida, no mar não tem acostamento e por isso, se alguma coisa acontecer, você precisa saber onde atracar com segurança para reabastecer, comprar peças, comida, água potável, socorro médico e até se abrigar de um mau tempo inesperado.

Bem, sabendo então o basicão e as similaridades, vamos destrinchar o Plano de Viagem, em inglês, Floating Plan, que nada mais é do que tudo o que você precisa saber, e anotar, desde o ponto de partida, até o ponto de chegada. Esse plano de viagem não tem um modelo específico, mas é super importante, tão importante que a Guarda Costeira dos EUA tem um formulário padrão para ajudar a montar o seu. Por que eles se preocupam com isso? Cara, é esse o papel mais importante da sua viagem onde vai constar tudo sobre sua embarcação e sua viagem e que você, maruj@ precavido que é, vai entregar uma cópia para sua família, amigos e marina. Se der algum problema, pessoal já tem uma ideia onde você pode estar.

É porque o Plano de Viagem serve de “mapa” até você que é super importante estar bem preciso em relação a datas e horários. “Mas como que eu faço isso?”. Bem, se você tem um GPS é moleza, basta usar a função “Plan” ou “Planejar” que você pode marcar cada ponto da sua rota, estimar uma velocidade e daí você vai saber onde estará em que dia e que hora. A gente usa um programa de computador bem completo que interage com uma porção de GPS, chama Coastal Explorer. Tá, eu sei que já falamos aqui no blog para não confiar em sinal de celular ou computador como seus únicos recursos de navegação, mas observe que: 1. estamos ainda na fase de planejamento, portanto, estamos ainda em terra firme, ou ancorados, ou atracados. Seguros. 2. usamos o computador como uma redundância de sistemas, ou seja, temos o GPS e o computador com a mesma rota, se um falhar, temos o outro. Outra coisa importante, nosso computador tem uma antena de GPS e por isso ele usa sinal dos satélites mesmo, nada de triangulação por torres de celular. Mesmo no meio do nada, funciona com precisão.

“Mas e se eu não tenho um GPS?” Não tem problema, na verdade, mesmo que você tenha, é super importante você ter as Cartas Náuticas, todas, do seu trajeto. O que fazemos aqui é ter cartas com escala grande para os trajetos longos e cartas em escala detalhada para os portos, marinas e pontos mais complicados de recifes, pedras, baías, etc. Como calcular seus tempos de viagem numa carta náutica? Parece difícil, mas não é.

Vamos por partes, mas antes, um aviso importante: no Brasil é preciso ter Habilitação de Mestre Amador, pelo menos, para fazer navegação costeira e o que estamos explicando aqui não é um Curso de Navegação. A gente sabe que navegar é prática e por isso, quando a gente fica muito tempo sem fazer, a gente esquece algumas coisas. A ideia é então relembrar, dar alguns macetes e uma ideia geral para quem já tem a habilitação ou está interessado em começar a navegar. Se você ficar curioso e quiser mais informações, treinar ou saber tudo sobre o uso das cartas náuticas, manda uma mensagem pra gente e vamos ter o maior prazer em te explicar os detalhes! 🙂

1. Carta Náutica

Primeiro de tudo, compre sua carta náutica e tenha certeza de que ela é atual. As cartas tem publicações e atualizações por algumas razões. A primeira é que as coisas mudam mesmo: barcos afundam, boias (balizamento) são colocadas ou removidas, aparecem marinas, desaparecem marinas. Mais importante do que isso, talvez, seja o fundo do mar que também muda, mas muitas vezes a marinha faz novas sondagens e inclui mais detalhes sobre profundidades, o que é super útil para quem não quer encalhar. Outra coisa importante das atualizações é a Declinação Magnética. Pode paracer doideira, mas não é, acredite. O Norte não é o Norte. Calma! O norte magnético, que a agulha da bússola aponta, não é o mesmo norte do mapa, ou melhor, da Carta Naútica. Tem uma explicação nisso aí que envolve um bocado de geologia, física e o caramba… para facilitar, colocarmos um link para você, mais curioso, começar suas pesquisas. É bem legal entender isso, aliás, super importante!

 

2. Distâncias

Agora que você já tem sua carta náutica, lembra que a gente está tentando achar o tempo e a distância da viagem, então vamos focar nisso e você vai precisar saber o que é Latitude e Longitude. O que vamos usar para as distancias e tempos é a Latitude, medida na escala preta e branca do Lado da carta. Por que a Latitude? Por causa de um cara chamado Gerardo Mercator. Não fica com raiva do sujeito, porque ele resolveu um problemão de séculos. As cartas, mapas, são distorcidos e vc já deve ter ouvido falar disso, bem, isso é por causa dessa forma que o Mercator desenvolveu de desenhar os mapas que acaba distorcendo as distâncias nos polos do planeta e as linhas de Longitude são justamente as que cortam de um polo ao outro, portanto, estão distorcidas e não dão as distâncias corretas.

As Latitudes, então, é que dão as distâncias e cada Minuto de Longitude corresponde a 1 Milha Náutica. Também tem um jeito simples de aprender isso, mas é muita história para esse post… Moleza, né? É só traçar sua rota com o lápis e uma régua, e transferir, com o compasso, ou a régua mesmo, essas distâncias para a escala de Latitude… Moleza! Tem um link aqui de um vídeo de como se faz isso (está em inglês, mas nem precisa ouvir. O importante é ver que ele pega a distância entre as duas ilhas com o compasso, e leva até a escala de latitudes para ver quantas milhas dá).

Fazendo esse processo aí para cada perna da sua viagem, você já vai saber as distâncias e no seu Plano de Viagem, você vai anotando isso tudo: por exemplo, do Rio para Buzios: x milhas entre Rio e Arraial do Cabo, a primeira parada. X milhas entre Arraial e Buzios, a parada final. Moleza.

 

3. Tempos

Bem, se você sabe as milhas, ou seja, a distância da travessia, você sabe que horas você vai chegar. Basta estimar sua velocidade. Tem um monte de formas para isso, mas a principal coisa é conhecer o seu barco. Aqui usamos um veleiro que faz metade do vento em velocidade. Hein?! É, se o vento sopra 10 nós, fazemos em torno de 5 nós e não importa a direção do vento. Explico: estamos fazendo uma estimativa por duas razões principais. A primeira é que a gente não vai ficar a viagem inteira igual a uns malucos de regata ajustando a vela a cada segundo. A gente faz isso em regata, mas numa travessia, não mesmo. A gente ajusta a vela para a direção predominante do vento e só muda se o timoneiro cambar, der um gybe ou se o vento mudar radicalmente. Por isso, a velocidade do barco cai pq a gente sabe que as velas não estarão ajustadas 100% do tempo para 100% do vento. Segundo porque é muito difícil que o vento esteja no ângulo perfeito para você fazer a travessia inteira em linha reta, como a gente desenhou no GPS ou na Carta Náutica. Não mesmo, numa travessia não tem jeito, vc faz algumas cambadas ou gybes e isso acrescenta distância que a gente aqui escolhe corrigir arredondando a velocidade para baixo. Tem vários modos de fazer isso, a gente escolheu assim.

Sabendo a velocidade do vento, que é só olhar as previsões de clima (já falamos disso aqui) e a direção, a gente estima a nossa velocidade e agora é só dividir. Lembra do Isaac Newton? (deveria ter prestado mais atenção na aula de física…) Velocidade = Distância / Tempo. 5 Nós = 80 Milhas / Tempo; Tempo = 16 horas. Fácil, fácil. Vamos levar 16 horas para um percurso de 80 milhas (1 Nó = 1 Milha Náutica por Hora).

 

4. Anota

Isso, aí. Agora que você já sabe quanto tempo leva para cada trecho da viagem, anota no seu Plano de Viagem a Hora Estimada de Partida (ETD), o Ponto de Patida (POO), a Distância Estimada (ET), o Ponto de Chegada (POD), a Hora Estimada de Chegada (ETA). Pronto, você tem tudo que precisa… Não. Ainda não.

 

5. Controle e Medição

A parte Anterior foi mais genérica, digo, mais ampla porque estamos calculando um trajeto de uma rota longa, mas mesmo assim precisa de alguns detalhes. O que a gente faz é incluir Check Points, ou Pontos de Controle, para a gente medir que estamos cumprindo nosso plano de viagem direitinho. Por exemplo, Ponta Negra, perto de Maricá, tem um Farol de Sinalização. Tá lá na carta náutica marcado como FL(2)10s71m21M. Para entender o que quer dizer esses números e tudo o mais, dá uma lida aqui. Bem legal!, mas basicamente diz que: FL= Flash, Piscando. (2) = 2 flashes. 10s = a cada 10 segundos. 71m = a 71 metros de altura do solo. 21M = visível a 21 Milhas de Distância.

Como usar isso? Se a gente estimou no Plano de Viagem que as 19hr estaríamos em Ponta Negra, quando der 19hr, ou até mesmo um pouco antes, alguém vai dar uma olhada no horizonte procurando o Farol de Ponta de Negra. Se for Verão, 19hr deve estar de dia e deve dar para ver o Farol, com 71m de altura e pintado de vermelho e branco, é difícil passar desapercebido. Se for Inverno, é provável que esteja de noite as 19hr quando passarmos por Ponta Negra então vamos procurar por 2 Flashes Brancos a Cada 10 segundos. Legal, né? Por isso que os Faróis são tão importantes porque se der 20hr e o navegador não localizar o farol, alguma coisa está diferente do plano. Pode ser que tenhamos velejado mais devagar, mas pode ser também que, a noite, estejamos muito longe da costa e não tenhamos percebido…

Inclua quantos Pontos de Controle quiser para você se sentir seguro. A gente aqui inclui uma porção e usamos até mesmo a profundidade para saber nossa localização, em especial, distância da costa. Vale tudo para ficar na rota, use e abuse de todas as informações que a carta náutica te der.

É nessa hora também que você calcula as distâncias e tempos de viagem para programar suas paradas de descanso, reabastecimento e pontos de apoio. Mesmo que possa parecer exagero, é muito-muito-muito importante saber onde você pode ancorar, atracar e buscar apoio em pontos estratégicos da sua rota.

 

6. Plano de Pilotagem

A gente já sabe como ir de um ponto ao outro, faltam detalhes de como partir e como chegar nos portos ou marinas, isso se chama Plano de Pilotagem. É o detalhe da rota de aproximação e saída porque se a gente não conhece muito bem o lugar que estamos saindo ou que chegaremos, é melhor ter a informação detalhada.

A gente mora, trabalha e veleja no Rio de Janeiro todo dia do ano pelos últimos 10 anos. Cara, acredite, a gente sabe sair da Baía de Guanabara de dia e de noite. Mas a gente não conhece a Marina de Ubatuba (não sei pq, nunca fomos pra lá…). Bem, e daí? Daí que a gente precisa, no Plano de Pilotagem, incluir como chegar lá: onde é a entrada, que marcações – balizamentos – existem, há restrição de calado (profundidade) para o nosso barco? tem um canal de navegação antes? Aliás, saiba que várias Marina no mundo tem restrição de horários para entrada nos canais de navegação. Especialmente na Europa e Estados Unidos em que muitos portos e marinas dividem o mesmo espaço, os grandões (navios de cruzeiro e cargueiros) tem preferência.

Além dos aspectos geográficos e de balizamento da marina, é importante também saber qual a frequência VHF que eles usam e, se possível, saber com antecedência qual a vaga que você vai ocupar para planejar bem a hora de entrada: maré, vento, luminosidade. Particularmente, eu não curto entrar e sair das Marinas durante as primeiras ou ultimas horas de sol porque dificulta muito a visualização das boias de canal, luzes de navegação e obstáculos. Se dá para escolher a hora de chegar, porque não a hora que você se sente mais seguro? Já até ancorei fora da marina para esperar o vento diminuir e passar no canal com folga e tranquilidade.

O Plano de Pilotagem é parte do Plano de Viagem, mas a gente aqui sempre faz num papel a parte, detalhando tudo. Para dar um exemplo, atracamos em uma marina na cidade de Fort Lauderdale, nos EUA. Para chegar na Marina, é preciso entrar no canal do Porto de Everglades, o segundo maior porto do país com dezenas de rebocadores, navios de carga, cruzeiro e outras dezenas de embarcações de lazer. Até a nossa marina tem um canal de 5 milhas e 3 bifurcações. O que a gente faz? Anotamos cada placa, baliza, boia no caminho e anotamos as sequências: “na baliza encarnada número 32, virar a boreste no entroncamento de canal, para Oeste.” e coisas como: “na placa ‘Velocidade Reduzida’ na entrada do canal, atenção para pedras na lateral do canal, manter 15 metros de distância” e “passar por 1 construção, 20m de altura, com chaminé. Deixar por Bombordo”.

A maior parte das informações estão nos Guias Náuticos ou na própria carta náutica. Mas se você ainda quiser mais informações, não hesite em contactar a Marina por telefone quando estiver fazendo seu planejamento e outros velejadores da região. Você vai se surpreender como a comunidade de velejadores se ajuda com informações sobre tudo! 😉

 

7. Todos ao Mar!

É maruj@! A gente preparou o barco e agora fizemos o Plano de Viagem no detalhe. Só falta uma coisa: velejar! 😀

Então, sem medo, sem complicação, não deixe de atender o seu chamado do mar e vem, #VemProMar que a gente te ajuda a realizar seu sonho.

 

Bons Ventos!

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