Então você quer ser Mestre Amador? Parte 3


Alou Maruj@s!!!

Demorou, mas chegou. Está aí a Terceira Parte do nosso resumo do Mestre Amador!

Lembrando: a gente escolheu não abordar o conteúdo todo da prova, porque, convenhamos, você pode ler sobre meteorologia, balizamento e essas coisas sozinho – ou nas postagens anteriores de Arrais Amador aqui no nosso blog. Além disso, outra ressalva importante é que a gente está mais acostumado com os termos em inglês que é a língua internacional para o mar. Por isso alguns termos podem estar mal traduzidos. Fizemos aquela super-pesquisa usual para adequar as expressões mais corretas e usar a mesma terminologia da Marinha do Brasil, mas pode ser que alguma coisa tenha passado. Avise para a gente, afinal, ninguém está imune aos erros! 🙂

Bem, vamos ao que interessa, sem mais bla-bla-bla.

 

Carta Náutica – Parte 4: Deriva e Componente de Vento

Nos posts anteriores você navegou pelos rumos e tudo o mais. Já está safo nessa coisa de Rumo. Agora você quer saber onde você está e colocar essa sua posição na Carta Náutica, ou melhor, Plotar Sua Posição. Obviamente, a essa altura, você já sabe que nem sempre o que você planeja no papel é de fato o que acontece na realidade. Os fatores são vários, mas principalmente a Correnteza/ Corrente (Deriva) e o Vento (Componente de Vento, ou Leeway), que vamos destrinchar neste capítulo. Se liga:

Se você já andou de bicicleta com certeza percebeu que pedalar contra o vento é muito mais difícil do que pedalar com o vento a favor, vindo de trás da bike. Daí a expressão, a Favor – dã – favorecendo sua pedalada. Mas quando ele vem de cara, pela proa, você precisa de mais esforço para pedalar, certo? Isso porque a força do vento está funcionando como uma barreira, como se alguém – um espírito de porco, com certeza – estivesse tentando te segurar. É uma força contrária e por isso faz você perder velocidade. Se o vento estiver muito forte e de lado, pode até te derrubar da bike.

Outro exemplo legal é para quem dirige no Rio de Janeiro. Talvez você já tenha notado que ao passar pela Ponte Rio-Niterói quando o vento está forte, o carro dá uma bambeada com as rajadas de vento. Então, o mesmo acontece no barco só que no barco o vento não muda apenas a sua velocidade, mas principalmente, sua direção. Essa variação é depois compensada por você no leme, para garantir que você está no rumo calculado para chegar no seu destino.

Outro fator é a Correnteza, ou Corrente. Tem gente que chama de Maré, mas eu não gosto porque pode confundir com a força de maré que faz o nível do mar subir ou descer. É outro assunto do Mestre Amador, mas não vamos falar disso aqui. A preocupação agora é a Corrente, aquela que quando você está na praia te puxa para um lado ou outro e que vai “puxar” o barco também. É como se o chão estivesse se movendo, que nem uma esteira de corrida. Se vc ficar parado, a esteira te joga para trás.

No mar é a mesma coisa. Se você estiver boiando em cima da água, ela vai te levar para algum lugar. A água se move, claro, e esse movimento é a corrente que estamos falando aqui. Se for mais forte, você vai se mover mais rápido. Se for de lado, vai mover você para o lado. Para trás, irá diminuir sua velocidade, vinda de trás, irá aumentar sua velocidade. Portanto a Intensidade da Corrente e a Direção da Corrente também afetarão o seu barco. Estas são as duas componentes da Corrente, ou melhor falando, da Devira: Direção (Set) e Velocidade (Drift).

Essa variação do Rumo causada pela Corrente e pelo Vento se chama Abatimento, e até faz sentido porque as duas forças Abatem ângulo e velocidade do seu rumo. Mas como calulcar isso? Ah-há! Aí vem o pulo do gato que nem é tão difícil assim. Vamos por partes.

Antes, um rápido adendo: dá uma olhada nos símbolos que a gente usa nas cartas náuticas quando falamos de Posição, Rumos, Corrente etc. É importante porque os desenhos a seguir todos usam estes símbolos. Também é legal saber isso porque sempre que você pegar uma carta náutica de outro barco, vai saber o que pessoal andou navegando. 🙂

 

Agora sim, voltamos a programação normal: Calculando o Rumo com Corrente

  1. Sua posição: marque onde você está agora e onde você quer estar no fim dessa perna – um Fix, como acima, um círculo com um ponto no centro.
  2. Seu Rumo: ligue esses dois pontos com uma linha reta (obviamente). No meio dessa reta vc vai colocar 2 setas. Mais ou menos assim:  ——>>——  Esse é seu Rumo Real, ou melhor, seu Curso sobre a Terra como vai aparecer no seu GPS (COG: Course Over Ground). É Curso Sobre a Terra porque a água se mexe como já falamos e a terra não, então para ir do ponto A ao ponto B, tem que ser o curso sobre a terra.
  3. Agora, retorne ao ponto de partida que está marcado com Fix (Círculo com um ponto no meio). Esse símbolo significa que é um Ponto Fixo (“Fix”), ou seja, um ponto conhecido, que você tem certeza que está ali. Nada melhor do que usar o seu ponto de partida, para você não se perder. Depois eu explico como se achar de novo – rs! Mas por enquanto, imagine que você é um navegador cauteloso e por isso está calculando tudo antes mesmo de sair da marina e aí o seu “Fixo” é a sua marina, ou o meio do Canal, ou a Bóia de Água Seguras. Escolha a vontade, mas tenha certeza que é um ponto Certo porque todas as suas marcações vão partir daí e se estiver errado, bem, vc já sabe… Vai dar problema. Normalmente usamos aqui a Bóia de Aguas Seguras, ao fim dos canais de navegação. Pelo simples fato de que é quando teoricamente acaba seu “Plano de Pilotagem” e começa seu “Plano de Navegação”. É também quando fazemos aqui a primeira entrada do Diário com Posição, condições de mar e atmosféricas. Ou seja, quando a coisa fica séria! 🙂

Ok! Você já sabe onde está, já sabe onde quer chegar e estes pontos já estão ligados pelo seu COG. Só que se você seguir esse curso, você não vai chegar lá, lembra? A Corrente e o Vento estão te empurrando para fora desse rumo. Então, agora, a gente vai Abater a Corrente e o Vento.

  1. No seu ponto de partida, o seu “Fixo” você vai colocar o rumo da corrente. “Mas Daniel, como que eu sei isso?” Calma, marujo! Na prova, vão te dar essa informação. “Po, Daniel, eu quero saber na vida real!” S2 Te amo! 🙂 Você consegue saber a corrente de várias formas:
    1. A mais fácil é olhar o seu sistema de navegaçao, GPS, plotter, ECDIS, como queira. Os mais modernos vão te dizer qual é o Drift (velocidade) e o Set (direção) da corrente. Eu – mas isso sou eu – não confio muito nessa informação porque muitas vezes o sensor, que fica submerso 100% do tempo, pode estar preso por uma alga, craca, plastico, ferrugem, o que seja… e daí eu iria calcular tudo errado.
    2. Outra forma é parar o barco e ver o que está acontecendo. Sem motor, velas, nem vento, o movimento do barco é, em teoria, só a corrente. O seu GPS vai te dar a sua velocidade e sua direção que, no caso, vai ser a corrente. Acontece que é muito difícil não ter vento nenhum, ondulação nenhuma para você ter certeza.
    3. Um outro modo de saber a corrente é observar as coisas que boiam. Algas, por exemplo, vão te dar a direção e a velocidade da maré. Como elas são muito baixas, rente à água, a influência do vento é quase nula e daí que elas estão à deriva, ao sabor da corrente.
    4. Outro modo é usar pontos fixos em terra e medir o tempo que você leva para cruza-los. Mais a frente a gente explica como “fazer uma visada” que nada mais é do que tirar o azimute (ângulo) de alguma coisa em terra. Usando esta técnica, é só saber onde você está em dois momentos diferentes e aí usar a matemática: Velocidade = Distância / Tempo. Se você souber as distâncias entre você e o objeto visado, vc pode usar o famoso Pitágoras: Hipotenusa ao Quadrado é Igual a Soma dos Quadrados dos Catetos (c2=a2+b2). Se não for um triângulo retângulo, você pode calcular usando os ângulos… Mas aí, cara, é melhor você dar uma pesquisada num site de matemática porque explicar isso aqui vai ser pauleira.
    5. Mas o jeito mesmo de saber a corrente é olhar as cartas náuticas. Algumas correntes são constantes e as cartas náuticas trazem esta informação no campo de observação ou na própria carta. Por exemplo, a corrente do Golfo, super manjada, na costa da Flórida é de 3 nós, Norte, a partir de 1 milha da costa. Moleza (só que as vezes bate 5 nós)…
  2. No caso aqui, vamos considerar uma corrente de 1 nó, Oeste, ou seja, de Leste para Oeste, 270 graus. O que fazer com isso? Você vai colocar lá no seu “Fixo”, sua posição confirmada, essa seta. Mas ó, se liga! Tem que ser do tamanho certo: 1 nó, é 1 milha por hora, então você vai pegar seu compasso, ir lá nas Latitudes e medir 1 Milha, ou seja, 1 minuto de latitude. E vai fazer essa seta ser do tamanho exato de 1 milha. Essa seta vc vai marcar com 3 setas, mais ou menos assim? ——>>>—— esse é o símbolo de corrente.
  3. Agora vem a sua parte de decidir: a quantos nós de velocidade você vai navagar? E aí vai depender de barco para barco, do ângulo do vento, se for veleiro ou motor, o que seja. Aqui, vamos usar 5 nós, que é uma média de velejada. O que fazer com isso? Você já sabe que medir distâncias é nas Latitudes, então você vai lá nas latitudes, com seu compasso, medir 5 milhas.
  4. Essa distancia vc vai colocar na ponta final do vetor da corrente e marcar a outra ponta lá na primeira seta que vc fez, o COG. Tá, complicou? Olha o desenho abaixo.
  5. Agora você vai ligar os pontos: a ponta do vetor da corrente, com o ponto em que a sua velocidade se encontrou com o COG. Essa seta vc vai marcar com uma seta só: ——>—— Esse é o seu Rumo a Seguir, ou CTS (Course to Steer). Esse é o Rumo que você vai Seguir (Verdadeiro – lembra que a sua bussola é magnética)

“Mas e o vento, cara!?” esse aí na verdade é mais fácil. Ele vai vir em forma de ângulo, apenas. E você pode medir facilmente observando suas birutas, o Windex, ou qualquer equipamento de vento. É só você descontar ou somar esse ângulo no seu curso. Leeway, ou componente de vento, vai ser só o tanto em graus que o vento vai desviar sua proa. Adicione ou some de acordo com o lado que o vento estiver batendo. Na prática você vai tomar o rumo a seguir e o vento vai te tirar desse rumo, vc vai apenas compensar o leme para manter a proa no rumo desejado. Essa “compensasão” é a Componente de Vento, ou “Leeway”.

Bem, isso aí é uma questão clássica de prova:  “Você esta na posição X Lat; Y Long, qual o Rumo a Seguir para chegar na posição Z Lat; W Long?” Essa você já sabe responder! 🙂

Mas… porque sempre tem um mas, e se você já tiver percorrido um tanto e no fim não estiver no lugar que você achava que estaria? AH! Estou Perdido?! Chama a Marinha! Mayday!!!…. Calma, maruj@! Sempre tem um jeito e esse, para mim, é o conhecimento mais importante de quem realmente quer navegar pela costa.

 

Carta Náutica – Parte 5: Posição Determinada

Erros acontecem. Além de todas as variáveis usuais do mar, ainda existem erros que a gente comete quando está navegando, cansado, de noite, com o barco se movimentando muito, na chuva, neblina… Ou simplesmente porque você é uma pessoa safa e quer garantir que tudo esteja correndo bem, você vai querer saber onde você está de verdade e confirmar a informação do GPS afinal, a boa prática de navegação implica em manter um Registro de Navegação (Log Book) com medições de posição e condições do clima, mar e do barco, a cada período de tempo (aqui fazemos a cada 1hr). Como falamos antes, talvez esse seja o assunto mais importante para uma navegação costeira de verdade e eu uso isso o tempo todo, mesmo com GPS, só para garantir e praticar porque eu acho legal. 🙂

Existem várias formas de saber sua Posição, vamos falar de 2 só, que são as mais práticas. Vamos começar pela mais simples – como sempre, mastigando direitinho para você ficar esperto! 🙂

Linhas de Posição:

Se você estiver perto da costa como, por exemplo, no estado do Rio de Janeiro, os marcos em terra são inúmeros. Imagine que você esteja entrando na Baía de Guanabara. Quantas referências em terra você tem? A olho nu você consege ver o Cristo Redentor, o Pão de Açúcar, a Fortaleza da Lage, a Pedra da Gávea, a Ilha Rasa, Ilha Fiscal, as Ilhas Pai e Mãe… Tudo isso vai te permitir tirar Linhas de Posição. Mas como?

  1. Com uma Bússola de Alidade: é uma bússola que você olha por dentro dela e vê a quantos graus está aquilo que você está olhando. Imagina um binóculo que quando você olha para alguma coisa ele te mostra que aquela coisa está a 270 graus, ou a 330 graus… Pois é, isso é uma Alidade, para os íntimos. Antigamente era um trambolho, literalmente uma luneta montada em cima de uma bússola… As mais modernas são super simples e cabem no bolso.
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  2. Bússola de Mão: nada mais é do que nome já diz. Uma bússola que você pode carregar pra cima e pra baixo.
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  3. Bússola do seu Barco: pois é, seu barco tem uma bússola – ou deveria ter, rs! – e se você olhar bem, ela vai te dizer a quantos graus cada coisa está. Se você tiver dificuldades de ver, basta virar a proa do seu barco para o que você quer marcar e ler a bussola. Não existe nada mais fácil do que isso. 🙂

Como usar as Linhas de Posição? Bem, eu gosto da Bússola de Mão: aponto ela para cada um destes marcos em terra e anoto os ângulos respectivos (é importante fazer isso de uma vez para não perder a referência e, de preferência, com o barco parado). Com essa informação, transfira sempre do Magnético para o Verdadeiro (real) – já falamos disso no post anterior – e daí é só traçar as linhas de posição de cada um dos marcos em terra e quanto mais referências em terra, mais precisa será sua posição. Dá uma olhada na foto abaixo, com o perdão de não ser a Baía de Guanabara como os anteriores, mas é que ficamos chiques e estamos navegando na baía de Nice, França! RS! 🙂

Visadas, Baía de Nice – Mestre Amador, Academia Nautica

Então, nesse exemplo, as medidas foram: Pointe Madame a 310 graus, Pointe Pilone a 45 graus, Pointe de la Gavinette a 95 graus e Pointe de la Rascasse a 285 graus. De cada um tracei a linha de posição como uma seta, normal, ——> e se você olhar bem, elas formaram um pequeno triângulo no ponto da interseção de cada linha. A nossa posição é alguma posição dentro deste triângulo. Este erro acontece porque o barco balança, não está exatamente parado, por conta do erro da búsola com os metais do barco, etc. Como saber de verdade onde estamos? Com mais linhas, esse triângulo diminui até que vira um pontinho pequeno e, pode parecer grande no exemplo da foto, mas se vc olhar bem, esse triângulo aí não tem nem mais do que 100 metros no lado maior, o que é um “erro” super justo. Para ficar safo, o melhor é assumir que você está dentro deste triângulo no lado mais perto de qualquer perigo e daí você vai desviar com antecedência.

É óbvio que você pode usar praticamente qualquer coisa que esteja vendo em terra, qualquer coisa mesmo, até um prédio, uma bóia, marcação de canal. Vale tudo. Mas o que é importante é que seja alguma coisa que você consiga também ver na carta náutica. Por isso que tantas trazem informações como Picos de morros, caixas d`água, torres elétricas, aeroportos, pontes, antenas, prédios simbólicos. Então, lembre-se: tem que ver em terra E na carta náutica. Daí é só traçar as linhas e pronto, aparecerá o seu triângulo de localização (há quem chame de “triângulo de incerteza”).

Running Fix

Eu não achei a tradução disso. Mas achei em português de portugal a expressão: “Marcar, Navegar e Tornar a Marcar” (NMTM) que faz sentido, mas como fiquei na dúvida se no Brasil se usa isso, vou chamar de Running Fix e se você achar o nome certo, mande um alô e a gente atualiza! 🙂

Bem, vamos lá! Essa técnica é bem legal, mas parece um pouco mais complicada. A vantagem é que você pode usar isso se você só conseguir ver 1 marco em terra e ainda assim descobrir onde está. Vamos destrinchar para você entender bem.

Imagina que você está navegando e a única coisa que você consegue ver é a luz de um farol, a noite. Pela luz e o piscar você consegue identificar qual é o farol e vê-lo na Carta Náutica (se vc não lembra das luzes, dá uma olhada no Arrais Amador. Lá tem o significado das luzes e as abreviações). Bem, isso não é um problema porque como maruj@ treinad@, você saca a sua bússola de mão e tira o ângulo (azimute): suponhamos, 338 graus. Transforma em Verdadeiro (real) para poder usar na carta, descontando a declinação magnética e a variação da agulha, dá 330 graus Verdadeiro.

Com o azimute real, agora é só traçar essa linha na carta náutica. Lembre de marcar a hora que você fez a marcação, a velocidade e rumo do seu barco. Mantenha esse rumo com toda a sua gana! rs!!!

Quando você traçar essa linha na carta ( ——> ) logo você vai entender que está em algum ponto desta linha. Mas pode ser que esteja há 1 milha de distância do Farol, ou a 20 milhas… Vai saber… Existem várias ferramentas para isso, listamos algumas no fim do post como Auxílos de Localização. Mas aqui, no caso, você preferiu tirar a dúvida e fazer o Running Fix para ter certeza. 😀

Para saber onde você está nesta linha, você vai usar a velocidade e a hora da primeira marcação dessa forma:

  1. Marque na carta náutica o seu rumo verdadeiro a partir de qualquer ponto do primeiro azimute marcado. ——>——
  2. Use a velocidade e a hora: se você está navegando a 5 nós, a cada hora você navega 5 milhas, a cada 30 minutos, você navega 2.5MN. A cada 15 minutos, 1.25MN. Então, em 15 minutos, ou uma fração que você ache adequada e segura, você vai usar o compasso e marcar essa distância percorrida na linha do seu Rumo;
  3. Quando der os 15 minutos você vai olhar de novo para o farol que te deu o primeiro azimute e tirar um segundo azimute do mesmo farol (lembra, ele é a única coisa que você está vendo). ——>
  4. Assim você vai ter 3 linhas plotadas: o primeiro azimute ——>, o seu rumo partindo do primeiro azimute ——>——, e o segundo azimute ——>. Vai ficar como no desenho abaixo (perdoe as minhas habilidades artísticas 😛 )
  5. Por fim, vem o pulo mágico do gato: você vai Transpor o primeiro Azimute para o ponto do seu rumo e da distância percorrida. Transpor é o termo técnico da coisa e você sabe como fazer porque você tem usado a sua régua paralela para transpor o seu rumo até a Rosa dos Ventos (de novo, olha lá rapidinho o post anterior se você esqueceu como fazer isso). É a mesma coisa, só que ao invés de levar a linha do seu rumo até a rosa dos ventos, você vai levar o Primeiro Azimute até o ponto da distância que você percorreu no seu rumo. Essa linha é marcada como <<——>>
  6. Agora você vai notar que o Primeiro Azimute e o Segundo Azimute se cruzaram. Voalá! É aí que você está. Sua Posição Estimada 🙂

Em qualquer um destes métodos, o importante é seguir sempre a ordem. Se você plotar a corrente no fim, vai dar errado. Se você transpor antes de marcar o rumo, vai dar errado. Além disso, é mais fácil lembrar de como fazer quando você repete sempre igual porque a verdade é que pouquíssimas pessoas de fato tiram posições estimadas dessa forma e confiam no GPS e no dia que tudo falhar, você não vai ter muito tempo de lembrar como que faz e muito provavelmente, também não terá internet para dar um google. Sabe como é, né… Murphy e sua lei maravilhosa 😀

Quando você for visar (tirar o azimute, o ângulo) das referências em terra a precisão é maior quando você mede um ponto à proa e outro à bombordo ou boreste, ou seja, perpendicular ao primeiro ponto. Não é regra, até porque nem sempre você vai conseguir isso, mas é bom saber. De toda forma, quanto mais pontos você marcar, menor será sua área de incerteza, então, vai fundo e tira o azimute logo de 3, 4 pontos.

É isso. FIM 🙂

Ah!!! os Auxilos de Localização!

Você sempre pode fazer uma conferência para saber se está na posição certa usando alguns outros recursos da carta náutica. Segue:

Linhas de Profundidade: não é exato, mas se você só tem um ponto para tirar o azimute, você pode estimar sua posição nesta reta comparando a profundidade em que você está lendo no seu ecobatímetro (“profundímetro”) com o da carta náutica. Como disse, não é exato, mas dá uma ideia.

Alinhamento: imagine que você está entrando na Baía de Guanabara. Quem já fez isso com a gente sabe que o Farol da Ilha Fiscal e o Farol da Ilha Rasa estão alinhados. Se você consegue colocar um em cima do outro, exatamente, vai saber onde você está. Muitos portos usam essa técnica nas chamadas Leading Lights.

Leading Lights: como agora você é um Mestre da Navegação costeira e tecnicamente consegue velejar o mundo todo, então é legal você saber disso. As leading lights são de vários tipos, mas é muito comum que portos grandes tenham, bem lá no alto, uma Leading Light. É uma luz de 3 cores: Vermelha (encarnada), Branca e Verde. Se você está vendo a luz branca é porque você está alinhado com a entrada do porto. Porém se está vendo a vermelha, é porque está muito a bombordo e precisa navegar um pouco mais à boreste até ver a luz branca. Na mesma lógica, se você vê a verde.

Radar: principalmente veleiros pequenos não estão acostumados com radares, mas esse equipamento é uma maravilha! Quase todos (eu não lembro de não ter visto um sem) tem uma função chamada EBL (Eletronic Bearing Line) e VRM (Variable Range Marker). Basicamente ele consegue te dar a distância e o azimute de qualquer coisa que o radar detecte. Pronto, fim de papo. Imediatamente você sabe onde está.

Segmentos Capazes: essa é cabeluda, mas é mais velha do que Colombo. Basicamente você usa um sextante para triangular a Altura de três Objetos, com os azimutes destes objetos. O ponto de interseção é a sua posição estimada que é, teoricamente, bem rigorosa e precisa. Confesso que eu nunca tentei fazer isso porque os outros métodos funcionam bem e requerem muiiiiiiiiito menos tempo e cálculos. Ah, e não precisam de um sextante.

Circunferências de Mesma Distância: se você sabe a distância de dois objetos, você pode usar o compasso para marcar os círculos da distância destes objetos e o ponto de interseção é a sua posição estimada. Eu não gosto disso porque medir distâncias no mar é justamente o que é mais difícil, especialmente quando se está longe da costa e as coisas perdem referências de tamanhos. Mas esse método é super preciso e funciona tão bem que o Liam Neeson no filme Busca Implacável 2 usa esse método para saber onde está depois de sequestrado. RS! Essa foi pros cinéfilos velejadores 🙂

 

Então, é isso.

Estes são os pontos mais difíceis do usa da carta náutica e do mestre amador. Não é nenhuma ciência complexa, mas também não é um passeio no parque para quem não está acostumado. Praticando, lendo, e utilizando de verdade vai te dar a chance de memorizar e aprender a raiz disso tudo e a matemática por trás destas linhas e ângulos. É bem bacana quando se consegue aplicar na prática e descobrir que você consegue se localizar facilmente em qualquer parte da costa, em qualquer parte do mundo.

Acabou essa série de postagens de Mestre Amador! 🙂

Esperamos que tenha sido útil e que não tenha sido terrivelmente chatou ou complexo demais.

Bons Ventos!

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