Regras de Preferência e a RIPEAM – Destrinchando o Arrais Amador


Maruj@s da Academia Náutica, maruj@s da Academia Náutica, câmbio!

Agora que vocês estão na escuta, que tal acabar com mais um mistério da náutica: A Prova de Arrais Amador! É, a gente realmente ama desmistificar essas ideias de que velejar é para poucos, é difícil, é complicado… Nada disso. Já falamos aqui e repetirei sempre que puder: Velejar É Fácil.

O Arrais Amador não poderia ser diferente. Antes de tudo, no entanto, vale esclarecer o que é um Arrais Amador. Pode ser que para o que você quer, nem precise de habilitação. Será?

  1. Navegar em baías, rios, lagos, represas… Bem, existem exceções e quem vai dizer é a capitania dos portos da sua região. No Rio, as Ilhas Oceânicas estão inclusas então um Arrais pode ir até as Cagarras, Ilhas do Pai, etc.
  2. Não importa a embarcação, desde que sua habilitação seja compatível com a área de navegação: pode ser um veleiro de 100 pés, se sua habilitação é de Arrais Amador você não pode ir navegando até Recife.
  3. Veleiro, precisa de Arrais Amador? Depende. Arrais Amador é uma habilitação para Embarcação a Motor. Se seu veleiro Não tem Motor, você não precisa. Se tem motor, mesmo que desligado, é preciso habilitação. Os snipes que usamos não tem motor, portanto, qualquer um pode velejar, mas somos enfáticos em garantir que quem alugue saiba realmente controlar o barco, as regras de navegação e segurança no mar.

Então vamos começar desmistificando por é aí mesmo! As Regras de Navegação! A famosa RIPEAM: Regulamento Internacional para Evitar Abalroamentos no Mar… Muito complexo para dizer que são Regras para Evitar Colisões no Mar e que são Iguais – iguaizinhas mesmo – no mundo todo. Ficou mais mais simples, né? Você pode ir velejando até o Caribe que as regras vão ser iguais (alguns países Incluíram algumas coisas para ficar mais seguro).

Aliás, evitar colisão no mar é simples, é só manter distância! 😛

A gente vai explicar direitinho, mas resumindo – bem resumido mesmo – é uma regra de Bom Senso baseada em Manobrabilidade, ou seja, a embarcação que tem mais facilidade de manobrar, tem que dar preferência para quem tem menos capacidade de manobrar. Só isso. Sério, só isso mesmo. Pode ir fazer a prova…

Para facilitar ainda mais, que tal um exemplo: você está pilotando um JetSki (motonáutica) a 20 nós e tem na sua frente um sujeito numa prancha de SUP.

  1. Primeira coisa: pranchas também são embarcações. A RIPEAM é clara e cita que qualquer coisa que seja usada para transporte de qualquer coisa no mar, seja gente ou carga, é uma embarcação e portanto, está sujeito às regras. O Jack e a Rose do Titanic, tá lembrado do fim do filme? – SPOILER ALERT!!!!, boiando em cima daquela porta, estão em uma embarcação. Eles têm preferência porque é muito difícil de manobrar! 😛
  2. Segunda coisa: Não Existe Exceção. Vou repetir: Não Existe Exceção. O Papa Francisco pode estar no jet ski, não importa, ele segue a mesma regra que você e tem que desviar da prancha de SUP. Toda embarcação tem que seguir as mesmas regras e todos a bordo são responsáveis pela segurança da sua embarcação. Se o comandante não desviar, é Obrigação do Passageiro tomar medida que evite a colisão. Não há exceções.
  3. Terceira coisa: na situação que criamos, o jetski navegando ao encontro de uma Prancha de SUP, quem consegue manobrar mais fácil? É, acertou: o Jet Ski. Então advinha quem tem que desviar? O Jetski tem que desviar… não é uma opção, é a regra. Penalidades e punições, que não são leves, ficam a cargo da Marinha do Brasil em um documento chamado RLESTA – cai na prova!

Beleza, o jetski tem que desviar – aliás, cabe um adendo importantíssimo: o Jet Ski desvia de Tudo, não tem preferência sobre nada, menos do Hidro-Avião, mas eu nunca vi um hidro-avião na Baía de Guanabara então…

Voltando… O JetSki tem que Desviar da Sup. Mas como que eu, na prancha de SUP sei se ele realmente me viu e está desviando? Pois é, pensando nisso, os caras escrevem mais uma regra: Toda Ação para Evitar uma Colisão tem que ser “Antecipada e Evidente”.

O que isso quer dizer? Super simples, quer dizer que se você está no Jetski você tem que desviar de uma forma que eu, na SUP, consiga Ver Claramente que você está Mudando de Rumo para evitar me atropelar. Como se faz isso? Tem regra também:

  1. Mudando o rumo em pelo menos 6 graus (vai, 6 graus é difícil de identificar, então muda logo em 30 graus)
  2. Mudando o rumo de uma vez. Não precisa ser bruscamente, aliás, não pode ser, mas não pode ser um pouquinho de cada vez… tem q mudar o rumo de forma que eu, na SUP, consiga ver que você mudou o rumo de propósito e não porque está balançando nas ondas.

“Mas comandante, não é melhor mudar a velocidade?” A regra diz que para evitar colisão a primeira coisa a fazer é Mudar o Rumo e a segunda coisa mudar a velocidade, mas vai além, diz que a gente tem que usar “Todas as Formas Possíveis Disponíveis para Evitar a Colisão”.

Funciona assim: agora eu que estou no Jetski (ou lancha…), vi você em um snipe velejando. Assim que eu perceber que é uma Rota de Colisão eu vou desviar de você, porque eu, na embarcação a motor, tenho mais capacidade de manobra que você, velejando. Então eu vou mudar meu rumo em 30 graus para boreste. Boreste porque a regra diz que preferencialmente se vira sempre para boreste. Como nos carros, é proibido ultrapassar pela direita, nos barcos é proibido virar à esquerda para desviar. Sempre a Boreste (direita). E por que 30º?  Para ser Preciso e Evidente. O objetivo é mostrar para você que eu te vi e que estou desviando de você, ou seja, vou virar meu jet para a minha direita em 30 graus.

 

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Calma aí, no desenho tá mostrando para virar na direção do cara? Tá certo isso? Tá certo sim. No desenho não dá para por uma escala correta, mas você precisa lembrar que o desvio tem que ser Antecipado. Ou seja, com bastante distância. De preferência, assim que você suspeitar que possa haver colisão. Os 30º (tem uma outra regra que explica isso) faz justamente uma diferença tão grande que se o snipe mantiver o rumo e a velocidade, a situação de risco passa. As vezes, é só desviar 30º para Boreste por 2-3 minutos e você já pode voltar para o rumo original.

Ah, mas vamos dar uma situação real…A coisa vai complicar para os barquinhos da figura! Se liga! Só para podermos explicar melhor!

Eu desviei os 30º para Boreste e fiquei de olho em você velejando no snipe. Acontece que você pegou uma rajada muito forte, inesperada, e seu barco deu um jibe sem querer (acontece, vai… mas guarda essa informação do jibe…) e agora? Tem uma regra que diz: a sua velocidade tem que ser compatível com a situação, então:

  1. Os 30 graus à Boreste não parecem mais ser suficientes para desviar;
  2. Além disso, eu estou muito mais perto. Lembra, 20 nós é rápido e em 1 minutos eu ando 600 metros, em 2 minutos, 1.2Km… E a proximidade é fator para colisão (dã! óbvio…);
  3. Se você deu um jibe na minha frente é possível que esteja com dificuldades de navegar.

 

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Tudo indica que eu preciso reduzir a velocidade para poder entender melhor a situação e daí, desviar de novo. Dessa forma, pronto, mudei a velocidade para ficar Compatível com a Situação.

Mas e o jibe? Existe uma regra para isso também e é mais uma regra baseada no bom senso. Se existe uma situação de possível colisão, e eu estou desviando, então você, que está sendo desviado, também tem que se preocupar. Evitar a colisão é responsabilidade de todos de acordo com a RIPEAM. Então, o Desviado também tem responsabilidade e tem que tomar 3 ações:

  1. Ficar de prontidão: “será que o desvio dele vai funcionar?” “será que a velocidade dele está certa?” “será que ele desviou de mim ou de outra coisa que eu ainda não estou vendo?”;
  2. Manter o seu rumo;
  3. Manter sua velocidade;

Não é porque você está num veleiro, sendo desviado e tem preferência sobre o meu jetski ou lancha que você vai me zoar rodopiando na minha frente toda vez que eu mudar o rumo. Então, meu amigo, mantenha seu Rumo e sua Velocidade para Garantir que meu desvio vai funcionar.

Simples né? Como falamos lá no início: é bom senso. Essa é a Base da RIPEAM que é um conjunto de 41 Regras e 4 anexos que se resumem a Manobrabilidade: quanto mais difícil de manobrar, mais atenção e mais preferência.

Então, vamos à Ordem de Preferências. Se liga na capacidade de Manobra de cada embarcação da lista!

Embarcações a Motor Darão Preferência à embarcações:

  1. Sem Comando: não é que o capitão esteja tirando uma soneca, são embarcações em que o leme está quebrado, o motor pifou, as velas não estão içadas, a embarcação está encalhada…
  2. Restritas na Capacidade de Manobra: são embarcações com reboques, redes de pesca, realizando um serviço no mar ou no fundo do mar, um rebocador…
  3. Engajada em Pesca: se o cara tá pescando numa traineira fazendo um churrasco e bebendo uma cerveja, isso não é Engajado em Pesca. Uma lancha de pesca também não vale… “A Regra é Clara Galvão”: para Pesqueiros Comerciais. Grandes Traineiras de Pesca com Redes Longas.
  4. Embarcação a Vela: embarcação a vela quer dizer que esteja velejando. Um veleiro, mesmo com velas içadas, que esteja navegando usando o motor não é um veleiro, é uma embarcação a motor.

Para as embarcações com alguma destas “restrições de manobrabilidade” existem formas diurnas para serem expostas nos barcos. São placas de metal, plástico ou até infláveis.

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As embarcações que têm algum destes problemas deverão colocar estas formas em algum lugar no barco para que fiquem bem visíveis, normalmente na proa. Eu sei, eu sei, você nunca viu isso num veleiro. Eu também não. Mas é a regra e as embarcações comerciais seguem essa regra. Tenta dar uma olhada nos cargueiros que entram na Baía de Guanabara, muitos trazem o cilindro de “Restrito em Calado” na proa ou então próximo à bandeira).

Embarcações a Vela Darão Preferência à embarcações:

  1. Sem Comando: pode ser uma lancha, um iate, não importa. Se o barco não consegue manobrar, ele tem preferência.
  2. Restritas na Capacidade de Manobra: idem. Se o barco está fazendo uma dragagem no canal, ele não vai conseguir sair da sua frente. Então, desvie.
  3. Engajada em Pesca: idem. As redes no mar são uma força bem forte que impede o barco de parar, virar etc. Desvie.

Embarcações Engajadas em Pesca Darão Preferência à embarcações:

  1. Sem Comando
  2. Restrita na Capacidade de Manobra

Todas as Embarcações devem:

  1. Evitar de todas as formas Impedir a passagem de outra embarcação: Não importa quem tenha a preferência, não se pode dificultar a vida do coleguinha…
  2. Dar passagem segura a embarcações com Restrição de Calado: Se você já velejou na Baía de Guanabara sabe do que a gente tá falando aqui. Os Cargueiros que entram para o Porto do Rio são embarcações a motor e deveriam dar passagem para os veleiros, mas eles estão Restritos pelo Calado, ou seja, são tão grandes que só podem navegar em um canal específico cavado no fundo da baía, se saírem desse canal, eles encalham. Então, mesmo que estejamos na vela no meio da regata e ganhando, temos que dar preferência… Dói a alma, mas é a regra.

Hidro-Aviões (!!!)

Cara, eu nunca vi um hidro-avião no Rio de Janeiro, mas tem uma regra específica para eles… Coitados, eles tem que dar preferência para todas as embarcações…

“Tá, mas e se forem 2 veleiros?”.

Veleiros Em Rumos de Colisão – Regras de Preferência – RIPEAM

Nesse caso a regra é clara: quem tem a Retranca Do Lado Esquerdo tem preferência. Mas se por algum motivo você não conseguir entender de que lado a retranca do outro barco está, é fácil:

  1. Com vento nos Bordos Opostos (a prova de Arrais Amador usa “amurados”. ex: amuras a bombordo ou amuras a boreste): o barco recebendo o Vento Por Boreste (Amuras a Boreste) tem preferência.
  2. Com vento em Bordos Iguais: o veleiro a Sotavento tem Preferência
  3. Se não for Possível Determinar o bordo do vento, então deve-se dar a preferência.

Vamos facilitar um pouco mais esse ponto 3 “Não For Possível Identificar o Bordo”… Seguinte, se não dá para ver se a retranca do outro barco está a bombordo ou boreste, esquerda ou direita, então a preferência é do outro barco. Você pode ver de que lado estará a retranca observando a vela Grande. Se ela está a Bombordo, a Retranca está a Bombordo. Funciona em 90% dos casos! rs!!! Só não vai funcionar se: você estiver em rota de colisão com uma Nau, Caravela, Fragata ou embarcação com velas quadradas (Square-Rigged) ou, o mais provável, você estiver indo de frente para um veleiro com uma vela balão que obstrua totalmente a visão das velas do outro barco. Nesse caso, a gente sabe que vela balão é difícil de manobrar, então, sejamos camaradas e vamos dar a preferência. 😉

 

Regras de Preferencia RIPEAM - Veleiros Arrais Amador Aula de Vela Curso de Nautica
Regras de Preferencia RIPEAM – Veleiros Arrais Amador Aula de Vela Curso de Nautica

 

Dúvidas: Jetski é embarcação a motor? Sim. Bote é embarcação a motor? Sim. Kite Surf é embarcação à vela? Sim. Prancha de Stand Up Paddle é embarcação? Sim. Pedalinho é embarcação? Sim. A RIPEAM é clara: qualquer coisa usada para transporte ou lazer que esteja na água, é uma embarcação.

Beleza, então você já sabe quem desvia de quem pela Lista de Preferências Acima e como se desvia (de forma Antecipada e Evidente). Mas como que eu sei se eu Preciso Desviar ou não? Se você percebeu, tudo na RIPEAM que falamos acima é relativo à Rota de Colisão então é importante entender O Que É Rota de Colisão e como identificar. A gente explica, claro!

Primeiro de tudo, para saber se vai haver colisão, é preciso que alguém esteja no comando e atento. Então a RIPEAM tem um texto para isso: Vigia. Toda embarcação tem que ter alguém Olhando E Ouvindo, bem como “usando todos os meios disponíveis”. Já falamos disso aqui também no post sobre Travessias e são equipamentos de auxílio como Radares, AIS e Radio VHF. Use e abuse dos recursos, vale tudo para Evitar Colisão.

Quem estiver de vigia tem que ser alguém capaz de entender e julgar a situação. Tem que ser alguém que saiba olhar para os barcos e entender se existe risco de colisão e, se existir, que ações tomar.

Parte do problema de bater em outro barco é a velocidade e por isso existe uma definição super importante sobre Velocidade Segura que não é um número arbitrado, como 5 nós. Não, nada disso. É, como já falamos, bom senso, mas precisa seguir alguns critérios:

  1. Condições de Visibilidade: chovendo, não navegue a 20 nós.
  2. Tráfego: se existem muitos barcos próximos, não navegue a 20 nós.
  3. Manobrabilidade: se seu barco demora para diminuir a velocidade, ou fazer curvas
  4. Luzes de Fundo: navegando a noite, entrando no Rio por exemplo, as luzes da cidade interferem na identificação das luzes de navegação. Faróis de carros, postes de luz, plataformas de petróleo super iluminadas…
  5. Condições de Mar, Correntezas e Ventos: ventos fortes dificultam as manobras e tiram estabilidade dos barcos. Também causam efeitos de empurrar os barcos pelo costado, por exemplo, em lanchas com flybridge.
  6. Calado e Área Livre: se estivermos navegando em águas muito rasas, existe uma série de influências no barco, mas principalmente o risco de encalhar e se isso acontecer é melhor não estar a 20 nós.

Canais estreitos são uma questão também, aliás, é quando existe muita proximidade entre os barcos. Pô, pensa só: muitas vezes não vai dar para desviar 30º pra boreste… Não lembro de ter visto isso em nenhuma prova de Arrais Amador, mas é bom saber pra vida! rs!!! Então, entenda que o princípio é o mesmo: Navegabilidade.

A primeira coisa é bom senso purinho! Em canais estreitos, você deve manter sua embarcação navegando a boreste, ou seja, como em uma estrada, na faixa da direita. Imagine que existe uma linha dividido o canal, ou rio, pela metade, você se mantém do lado direito. Moleza! 🙂

Mas as coisas não são assim tão preto-e-branco. Claro que não… Se houver neblina, por exemplo, ou mesmo a noite, e não seja seguro navegar colado na margem do canal à direita, é óbvio que você irá navegar mais para o meio do canal e, quando avistar outro barco, retornará para o seu lado.

A segunda coisa é que por ser um canal, não é recomendado velejar, mas sim, motorar. Então isso muda um pouco as regras de preferência já que, tecnicamente, mesmo com as velas içadas, um veleiro terá que usar o motor no canal e daí vira uma Embarcação A Motor. Essa mudança acarreta que o veleiro muda de “categorai” e passa também a dar preferência nas regras de de manobrabilidade como, por exemplo, um veleiro de 30 pés deverá dar preferência para uma Lancha de 80 pés já que no canal, a lancha terá menos espaço para manobrar.

E é justamente nos canais que acontece o maior número de colisões em ultrapassagens. Imagina só, você, no seu veleiro com seu motor de 40HP em um canal estreito e uma lancha com 2 motores de 200HP atrás de você. Ele vai querer te ultrapassar e existem algumas regras básicas sobre ultrapassagem segura:

  1. A embarcação que Ultrapassa deve dar Toda Preferência ao Ultrapassado: quem estiver ultrapassando tem que entender que está assumindo um risco e portanto, perde a preferência. Se o ultrapassado precisar desviar, quem ultrapassa deverá deixar de ultrapassar e seguir atrás.
  2. A velocidade deve ser Segura e Compatível: ultrapassar em um canal muitas vezes implica em acelerar o barco. Mas em um canal, quanto mais rápido, mais marolas vão bater nas bordas e voltar, causando problemas para navegação. Por isso, muitos canais tem limites de velocidade estabelecidos. Normalmente 3 nós, mas a maioria diz: “sem ondulações”. Se não for possível ultrapassar sem ondulações, então você não pode ultrapassar.
  3. Você está ultrapassando outra embarcação sempre que:
    1. Se aproximar pela popa até um ângulo de 22.5º para trás da meia nau
    2. Se aproximar pela popa e for possível ver a luz de alcançado (que é 22.5º também)
    3. Se há dúvida quanto ao ângulo, então se assume que é ultrapassagem
  4. Uma vez iniciada a ultrapassagem, mesmo que o ultrapassado mude a rota, ainda assim permanece a situação de ultrapassagem

 

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Existe mais uma coisa super importante na ultrapassagem que é Informar a intenção. Isso mesmo, quem vai ultrapassar tem que avisar por qual lado vai ultrapassar e quem será ultrapassado tem que consentir ou não, dependendo dos riscos. Isso pode ser feito visualmente se estiverem perto um do outro, por rádio VHF ou por buzinas. E aqui entra uma ressalva para explicar os sinais de som. É fácil!

  • 1 Buzina Curta: Mudando Rumo para Boreste (começa com Boreste pq é o lado que a regra diz para virar em rota de colisão)
  • 2 Buzinas Curtas: Mudando Rumo para Bombordo
  • 3 Buzinas Curtas: Estou Operando com Propulsão à Ré. Não quer dizer que o barco está necessariamente andando para trás, mas que os motores estão operando para dar ré. É como se fosse um freio, mas eventualmente, vai começar a navegar para trás…
  • 2 Buzinas Longas significam Intensão de Ultrapassagem quando são seguidas de Buzina(s) curtas, ou seja:
    • 2 Buzinas Longas: Intensão de Ultrapassar + 1 Buzina Curta: por Boreste.
    • 2 Buzinas Longas: Intensão de Ultrapassar + 2 Buzinas Curtas: por Bombordo.

 

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Molezinha pura!

Agora que vc pediu para ultrapassar, eu vou dar aquela olhada geral, ver que a barra está limpa e aceitar sua intenção de ultrapassagem com a Buzina : 1 Longo + 1 Curto + 1 Longo + 1 Curto.

Se eu não entendi a sua manobra ou se houver um perigo, posso sinalizar com a buzina também: 5 Curtos. Ou ainda, a letra U do código Morse: 2 Curtos + 1 Longo que quer dizer “Você está navegando para um Perigo”

Beleza. Então a gente já entendeu quem da passagem para quem, como se desvia, que proximidade e velocidade são riscos de colisão e já sabe até se comunicar com a buzina. “Mas você não explicou sobre como saber se é Rota de Colisão!”

Chegamos a isso agora!

Rota de colisão são basicamente duas situações: Rumos Cruzados e De Frente.

Rumos Cruzados o nome já diz: você está navegando para Norte e tem um barco se aproximando pelo Leste. Quem se aproxima por Boreste (direita) tem preferência. Dá uma olhada de novo no primeiro desenho que colocamos lá no início com o JetSKi/Lancha indo de encontro ao Veleiro. Naquela situação, o veleiro tem preferência por ser veleiro E por estar a Boreste.

Então, nesse caso você precisa desviar. Desvia para onde? Boreste. “Pô, vou virar na direção do cara?” Vai, mas lembra que a manobra tem que ser Antecipada e Evidente, então você vai virar bem antes, assim que você avistar uma embarcação chegando pelo seu boreste. E mais, quando você vira 30º a Boreste você está buscando garantir que passará por trás do outro barco.

A regra é essa: “Evitará ao Máximo Passar pela Proa (frente) da Outra Embarcação“.

e nada de acelerar para cruzar na frente! Rs! (cara, isso é tão errado que dá pra perder as contas de quantas regras são infringidas…)

E por que se vira para Boreste e nunca para bombordo? Porque se você vira para boreste e o outro barco virar para bombordo, haverá o risco de colisão de novo. Então a regra é que todo mundo sempre vira para boreste, salvo em último-último-ultimo caso.

Lembre, ele tem a preferência e por isso, segue aquelas 3 regras: ficar de olho, manter o rumo, manter a velocidade. Mas se ele achar que ainda há risco de colisão, ele deve avisar antes de tomar ação:

  1. Buzina (1 som longo – 5 segundos de duração): “Tenho Seguimento Avante” – navegando para frente. É também um sinal de Alerta com baixa visibilidade e deve ser usado a cada 2 minutos em neblina ou chuva forte.
  2. Se não funcionar, então Buzina de novo! E nesse caso pode-se usar o sinal de manobra  com 5 buzinas curtas (1 segundo de duração cada): “não estou entendendo sua manobra”. Pode ser mais de 5 buzinas, mas vai depender do tamanho do seu desespero! 😀
  3. Se ainda assim não funcionar: Rádio VHF. Uma mensagem bastante usada é “Embarcação na Posição X, Embarcação na Posição X (ler as coordenadas GPS), Aqui é Veleiro Y, por favor, reconhecer rota de colisão”. Se você sabe o nome da outra embarcação, então não use a posição, chame pelo nome que é melhor. Por exemplo: “Iate Oceano Azul, Iate Oceano Azul, Aqui é Veleiro Desbravador se aproximando pelo seu bombordo. Por favor, reconhecer rota de colisão e tomar ação. Câmbio” – Aguarde a Resposta e Fique atento. Repita a Mensagem quantas vezes for necessário.
  4. Se nada disso der certo, então ele mudará o rumo para Boreste. BO-RES-TE 😛
  5. Outra coisa, dentre os itens obrigatórios de segurança, tem um kit de sinalizadores pirotécnicos. As embarcações importadas tem pelo menos 1 sinalizador de cor Branca, obrigatório nos EUA e Europa. Ele é usado especificamente para Avisar sobre Rota de Colisão. Mas lembre: os pirotécnicos funcionam melhor a noite, de dia, use os fumígenos (fumaça).

Rumos de Colisão De Frente, ou proa com proa, é bem óbvio também. Você está seguindo para o Norte e eu estou seguindo para o Sul, a gente vai bater de frente se não fizer nada. Nesse caso, as duas embarcações devem Desviar para onde? Para Boreste. Sempre Boreste. Assim, passaremos uma pelo lado de bombordo da outra.

Importante para caramba!!! Essas regras de Rumos Cruzados e Rumos de Frente são para Embarcações A Motor Que Se Cruzem. Lembre-se que o Arrais Amador é uma prova para Motor, mas tem perguntas sobre veleiros também. As regras para encontro de Motor x Veleiro, são as regras de Manobrabilidade que falamos e de Veleiro x Veleiro, aquelas regrinhas da Retranca a Esquerda e Amuras. Não confunde isso!

São 3 Conjuntos de Regras: Embarcações x Embarcações com Restrição; Veleiro x Veleiro; Motor x Motor. 😉

Então, agora você já sabe todas as regras de preferência. Não é complicado, tampouco difícil de aprender, mas a prática é importante para se habituar as dificuldades das situações e quando você estiver velejando com a gente, vamos lembrar cada regra dessas, todas as vezes que navegarmos. Já ouvimos muitos “causos” de quase acidentes por razões das mais diferentes, mas o principal é saber que colidir no mar é um problemão que pode ser até fatal, então leve a sério as regras de preferência.

Use todas as ferramentas e equipamentos disponíveis mas principalmente, mantenha Distâncias e Velocidades seguras, sempre. E aí, todo mundo vai navegar seguro!

A prova de Arrais Amador não é difícil, mas é cheia de pegadinhas. Se você estudar o material da bibliografia sugerida pela Marinha, você passa fácil. Se ficar em dúvida, sempre opte pela Opção mais Segura. A RIPEAM trata justamente disso, Segurança, então não tem outra opção.

Bem, essa é uma parte do que estamos preparando para cobrir a maioria do Programa de Arrais Amador. O próximo post será sobre luzes de navegação que é bem mais light (hehehe) e, tal como nesse post aqui, vamos dar até mais informação do que é dado nos cursos tradicionais e até mesmo mais informação do que é cobrado nas provas.

A nossa missão é Democratizar a Náutica e a gente acredita que a informação, de qualidade, tem que ser bastante difundida para alcançar esse objetivo! 🙂

Então, bons estudos para bons ventos!

#VemProMar!

 

p.s: tudo daqui saiu do livro da RIPEAM chamado “A Seaman’s Guide Pocket Book of THE INTERNATIONAL REGULATIONS FOR PREVENTING COLLISIONS AT SEA”, da Morgan Technical Books Ltd, GLoucester UK. É a última revisão disponível, já com as emendas feitas pela IMO e MCA em 2016. Esse livro fica aqui no barco, e a gente usa sempre que temos dúvida em alguma coisa. Nada mais é do que todas as regras mesmo, da PARTE A, Regra 1, até o Anexo IV. Então estamos entregando para você muito mais do que interpretações sobre a regra, estamos dando a “letra fria da lei”, ou seja, as regras mesmo, originais para você poder aprender de verdade. Os trechos “entre aspas” são as palavras usadas nas regras e usamos isso para dar ênfase do que a RIPEAM quer que todos nós, no mar, sigamos.

 

cara, esse post foi longo… 😛

 

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